"Sei que tudo vai ficar bem
só não sei se vou ficar também..."
(Pato Fu com Andrea Echeverry; "Tudo vai ficar bem")
Essa entrou, já na primeira audição, no meu top ten de músicas para ouvir quando se está triste... para ficar mais triste. Está lá, ao lado de "Dowtown trains", do Tom Waits, "No surprises", do Radiohead e "Black", do Pearl Jam. E de "The way", do Fastball, de "Acrilic on canvas", do Legião Urbana (sim, eu fui adolescente nos anos 80, e daí?; pior quem gostava do Buongiovi) e de "O pastor", do Madredeus. Tem umas quantas mais, só que lista não vai interessar a ninguém, só a mim. Porque os motivos que as fazem tão especialmente tristes só fazem sentido na minha cabeça.
E é por aí que eu queria começar. Por que às vezes faz sentido estar triste mesmo que todo o mais diga em contrário?
Porque na verdade, esse é um
post feliz. Motivos não me faltam: fui promovido, vou morar em Barcelona – na verdade, em Badalona, perto da praia, pelo menos em um primeiro momento – e de quebra passo a ser um residente de plenos direitos. Já posso começar a planejar minhas férias, o que significa que em breve estarei aí no Brasil, publiquei de novo no Globo no último domingo... Motivos não faltam. Então por que diabos nas últimas semanas eu sinto, tão freqüentemente, esse enjôo de quem vê o avião afundar no vazio em uma turbulência, como quem escuta a notícia de que morre um parente próximo?
Só pode ser pela mudança. Nem precisava minha terapeuta me dizer (oi, doutora Elaine, acho que quando chegar aí vou pedir umas consultas pra apertar os parafusos que foram soltando de lá p'ra cá) que tenho problemas com isso. Sou contra os câmbios. Quaisquer. Não queria sair do Rio e mesmo odiando Curitiba (sorry folks, é a mais pura verdade; adoro os amigos que fiz por lá, mas a cidade não me desce até hoje) demorei vinte anos pra ir embora. Quase todos meus relacionamentos acabaram quando a outra pessoa tomou a decisão que eu deveria ter tomado muito antes.
Só fui bom em dispensar trabalhos, o que não chega a ser motivo de orgulho.
Repito para mim mesmo: só pode ser por isso. Medo da mudança. Deixar Madrid, os amigos que fiz aqui, ter que aprender novos caminhos, que me acostumar a olhar para outro teto antes de dormir. Ser outra vez estrangeiro: Catalunya é outro país. Mesmo.
E estar só, irremediavelmente só. Isso assusta.
Ainda que já tenha gente ali me esperando. Os espanhóis dizem que os catalães são gente difícil, fechada, mas que quando você consegue um amigo, é para sempre. Se é realmente assim, tirei a sorte grande; já tenho três: uma me abriu a sua casa para quando eu chegar com mala e cuia, outro (meu chefe, um moleque de 26 anos) quer me ensinar a esquiar – alguém me vê em cima de uma prancha de snowboard? – e a última é uma companheira de master, mãe de uma menininha encantadora que ainda não fez seis meses, alguém cuja companhia me faz esquecer que estou tão longe de casa.
Vêem porque eu disse que este é um
post feliz?
E podem entender também porque às vezes eu coloco os fones e fico ouvindo "Tudo vai ficar bem" até enjoar?
Seja como for, o que importa, agora, é que a partir do mês que vem eu vou poder oferecer alojamento em Barcelona. Me mudo em menos de duas semanas, com algumas caixas a mais na bagagem e a sensação de que estou começando minha vida outra vez. Exatamente como me sentia quando saí do Brasil. O que importa é que provei para mim mesmo – sim, porque cheguei a duvidar em alguns momentos – que acreditar é a coisa certa a se fazer. Acreditar e perseverar. "El que persevera, gana", me ensinou Jose Manuel Navia, um dos grandes com quem pude estar ano passado.
Vou continuar nessa rota que tracei um ano e meio atrás. Não sei dizer se é definitiva, se isso significa que vou estar aqui para sempre ou se depois de algum tempo vou me cansar como me cansei de tantas coisas antes. Não sei, e não faço questão de saber. Eu estava certo quando decidi vir, mas poderia ter me equivocado com gosto, e na verdade a única coisa que me interessa é que eu tentei e continuei tentando. E se tem alguma coisa que eu gostaria de deixar aqui, pra vocês, é isso: continuem tentando. Nada de murros em ponta de faca, por favor. Sou contra. Mas insistir quando parece que não dá mais pode terminar com um gosto bom na boca.
Estou esperando visitas.
P.S. A foto vai com título e legenda:
Soneto 11
"Amor é fogo que arde sem se ver;
É ferida que dói e não se sente;
É um contentamento descontente
É dor que desatina sem doer"
Luís de Camões
tu não me conhece e viceversa. mas comecei um comentário aqui e, de tão extenso e amplo, resolvi publicá-lo no meu blógue.
citei a 'fonte' que originou meu post, espero que tu não se importe.
saudações