Transatlântico

Molequinho

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Comprei um caderninho desses que aqui vendem em qualquer papelaria, com capa preta, folhas sem pauta e um elástico para impedir que, dentro da mochila, tudo acabe parecendo papel de presente depois de se ter aberto o presente. Muito útil também para segurar o que por acaso for colocado ali dentro, até porque ele vem com uma pastinha na contra-capa justamente para incentivar o usuário. A colocar coisas dentro.

E até que o danado é útil: no final de semana passado saí de casa com ele — ainda ter nada escrito — e, dentro, quatro passagens de ônibus, mapas do metrô e dos ferrocarriles e uma folha impressa do via Michelin com o caminho para chegar na casa onde ia ficar hospedado. Já ia esquecendo. Estava indo para Barcelona. Imaginei que, no caminho, ia me ocorrer alguma coisa para inaugurar o caderninho. O tal do Moleskine. Que, dizem, era usado pelo Hemingway.

Mas não me ocorreu nada. Da viagem, o balanço foram duzentas fotos e bolhas nos dois pés. Que na segunda descobri que se chamam "ampollas".

Seja como for, fui jogando para dentro do "molequinho" (sou carioca, a comparação é inevitável) tudo o que eu recolhia pelas ruas da cidade. Sim, sou daqueles que recolhe as coisas que distribuem os equivalentes locais da Igreja Universal, os pontos de informação turística, as propagandas de restaurantes onde eu nunca vou entrar porque eu sei que são para turista, os anúncios de búzios africanos, tudo. E depois guardo em uma caixa ou uma pasta esperando o dia em que vou abrir e relembrar coisas dessa e de outras viagens.

E daí? Turista japonês só sabe por onde passou depois que vê os vídeos em casa.

Seja como for, de novo, só fui inaugurar o caderninho de volta aqui em Madrid. Não por falta do que escrever. Mas admito que ultimamente eu ando com dificuldade de verbalizar qualquer coisa. Como se ao dar nome aos bois eu pudesse acordar algum. Prefiro manter os bichos dormindo. Tadinhos, vão virar hamburguer, mesmo. Enfim, faz tempo que eu evito até pensar. O que não é difícil, a Paris Hilton faz isso desde que nasceu.

Só que aconteceu uma coisa estranha. Depois das primeiras duas páginas, que saíram a muito custo, foi difícil foi parar de escrever. Não vou entrar em detalhes porque é a parte do meu cérebro que funciona em espanhol, mas ela está a todo vapor. Que ninguém se engane, não está nascendo um romance ou a vida como ela é, mas acho que finalmente eu achei um substituto à altura para a terapia. E olha que eu nem tinha notado que fazia falta.

Well, that's all folks. Até mais.

P.S. O verão é senegalês, e as Havaianas continuam sendo uma febre. Um par desses chinelos de fazer faxina em casa chega a custar mais de 20 €. Resultado: a criatividade empresarial já oferece uma alternativa para os bolsos menos privilegiados.
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Publicado em 27 de julho de 2007 às 00:58 por marquexxx

Comentários

    • minha havaina arrebentou e saí para comprar outro chinelo. sei que vendem havaianas por aqui, mas nao sei onde, nunca achei. só vejo no pé dos outros. entao comprei um chinelo de 12 Euros, confortável e que devia susbstituir minha havaiana até eu ir ao Brasil, e comprar uma "autêntica". e nao é que o tal chinelo, um dos mais caros da loja, depois de um mês, já está em frangalhos! além de que, quando eu ando ele gruda no meu pé e desgruda e faz um samba pela avenida (neste aspecto ele é mais brasileiro que a própria havaiana ;-). Foi aí que percebi que a havaina é realmente um produto exportacao. pelo menos perto do chinelo que infelizmente comprei. e quando for ao Brasil uso os 20 Euros pra comprar uns 4 pares. aí quero ver eu passar falta...

      ps. eu nao sou carioca e nao entendo isso de "molequinho". viajei.
    • por ariadne
    • 27.Jul.2007 às 09:18 - Permalink - Reportar
    ariadne
    • É que "Moleskine" soa igual a "molequinho", só por isso. E no Rio a gente chama todo mundo de moleque. Ou de neguinho, o que nesses tempos politicamente corretos é melhor evitar. Fiquei quase 20 anos em Curitiba e nunca consegui usar o "piá", me doía no ouvido... Sem ofensa, só não curtia o som, mesmo. Já "guri" eu até acho simpático.
    • por marquexxx
    • 27.Jul.2007 às 09:38 - Permalink - Reportar
    marquexxx
    • hahahaha. eu nao sou de curitiba. sou de minas. morei em londrina. e agora vivo na alemanha. em minas nós falaríamos algo do tipo: "mininu muléqui". mas, mais nao digo pois estou deveras fora de contexto linguístico ;-)

      ps. moleskines sao realmente práticos ;-) acho que seria interessante ler o seu. hehehe. abraco.
    • por ariadne
    • 27.Jul.2007 às 15:02 - Permalink - Reportar
    ariadne
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    • por http://tramavirtual.uol.com.br/artista.j
    • 31.Jul.2007 às 15:52 - Permalink - Reportar
    http://tramavirtual.uol.com.br/artista.j
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