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Sábado, duas da manhã. Lavapiés. Quem já leu alguma coisa, qualquer coisa, sobre Madriz, certamente terá ouvido esse nome. É o bairro multicultural da cidade. Onde se instalaram os recém-chegados nas últimas marés de imigração -- que ainda estão longe de acabar. Estão ali os marroquinos dos 80, os asiáticos dos 90 e os subsaharianos que vieram daí em diante. Latino-americanos, não, porque colombianos, bolivianos e peruanos preferem outras regiões. E argentinos... bom, os argentinos acham que são espanhóis.
São duas da manhã porque eu saí de casa às nove para ir a uma abertura de exposição, acabei sendo levado para outra, mais longe, no
Matadero de Legazpi, de lá para um bar em frente e dali, para uma danceteria-bar de copas-casa de shows no acima referido bairro. Depois de uma cerveja (lembrem, eu não posso por ordens médicas, mas é sexta-feira à noite, pelamordedeus!) e algumas tentativas de passos de dança junto com os amiguillos do curso, desisti e decidi ir pra casa.
Tinha uma boa desculpa, uma sessão de fotos nas "afueras" de Madriz às dez da manhã. Mas acho que não era por isso.
Às duas em ponto, estou sentando no balcão de um Dönner Kebab na calle del Amparo comendo um falafel completo. Adoro falafel, não sei se pelo bolinho em si ou pelo molho. Enfim. Nos últimos dez minutos eu havia tentado em vão decifrar se o cozinheiro era indiano ou paquistanês, mas desistido porque em tudo, aos meus olhos, eles são idênticos. Sei que isso pode soar a ofensa, mas é assim. Até a tevê a cabo costuma ser a mesma. Clips de música pop asiática que em tudo lembra a norte-americana, descontando as peles morenas e o jeito de mover os braços nas coreografias, que de resto poderiam ter saído de um vídeo da Beyoncé ou da Aguillera.
Nesse momento, me dou conta de que estou fazendo exatamente aquilo que desejava — mais que isso, ansiava — fazer há exatamente um ano. Estar fora do Brasil (mais que isso, fora de Curitiba) vivendo uma experiência que havia sido meu Eldorado desde a adolescência. Algo como uma gestalt gastronômico-cultural: de repente, tudo o que eu via na minha frente soava a algo que eu já tinha imaginado, sonhado, planejado. O fato de ter vivido isso em Lavapiés é emblemático, porque é o lugar em que todos os guias te dizem para ir se você deseja uma experiência assim em Madriz.
É embriagante. A sensação de liberdade, de estar, repentina e absolutamente, completo. Não te falta nada, da cabeça aos pés. Você está ali, você está vivendo aquilo. é uma noite agradável, vinte graus celsius acima do que faz na terra de onde você veio. É perfeito.
O que os guias não contam, porém, é o que você sente depois. Imagino que isso deve ser único para cada um, se é que todo mundo chega a esse ponto. Para mim, foi algo como uma
emotional hangover gigante. É impossível não fazer a pergunta clássica: "Ok, era isso o que você queria, e agora?"
Então? E agora?
Não tenho reposta. Quero estar aqui, como queria antes, porque sinto que onde estava não era capaz de me libertar das sutis tramas que a vida costuma te oferecer como caminho para a felicidade ou a perdição. Nunca quis estar em Curitiba, desde o começo, e ainda assim fiquei 20 anos na cidade. Cheguei com a família, logo havia a faculdade, a outra faculdade, depois o trabalho, o casamento, os amigos, a banda... Nenhuma obrigação, essa é a cruel lógica da vida. Fiquei porque quis, porque achei que ficar era o certo em cada momento. Mas nunca deixei de querer ir embora. Parece ingratidão, mas não é. Nada contra, folks, eu só não gosto. Ponto.
Aqui, estou começando projetos, estou sendo obrigado a enfrentar tudo e a mim mesmo sem ajuda de ninguém. Ok, tenho minha garota, mas isso é outra história. Aqui, não dá mais para olhar no espelho e dizer "daqui a pouco, espera só uns dias a mais, um ano, dez, talvez". Não. É agora; nunca, como antes, vivi o momento presente como hoje. Nunca me senti tão vivo. Nem tão ameaçado. Por isso estou aqui à uma da tarde de um domingo, porque preciso mastigar muito bem esses sentimentos e digeri-los perfeitamente. Como o falafel.
Hasta luego.
"Neste mundo só há duas tragédias. Uma é não ter o que se deseja, a outra é consegui-lo. Esta última é a pior, é a verdadeira tragédia."
Oscar Wilde
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