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Finalmente estou aqui. Depois de levar uma bronca do Zero, que gentilmente me convidou para entrar no tipos, estou reciclando um e-mail escrito essa semana, que mandei para os amigos depois de ter ficado muito tempo sem dar notícias. Para quem não me conhece, sou jornalista, nascido e criado no Rio e, depois vinte anos de exílio em Curitiba, vivendo hoje em Madriz para um master em fotografia. Não tenho vontade de voltar, mas isso é outra estória. Pretendo ser assíduo a partir de agora, porque coisas para contar é que não me faltam. Espero que gostem.
"Bom, em primeiro lugar, eu sei que faz tempo. Muito tempo. Para quem não me encontra no msn, meses. Mas a vida é assim. A gente fica tão ocupado com outras coisas que esquece que ela passa. E passa rápido. Muito rápido. Eu não consigo nem lembrar quando foi que eu parei de prestar atenção para entender o que se falava na tevê. De repente, sem que eu tenha me dado conta, eu entendia. Tudo bem, eu continuo tendo que fazer leitura labial para compreender um amigo que é de Las Palmas, mas isso é outra história.
Pior ainda, acreditem, foi descobrir que eu estava assistindo a uma entrevista do Zucchero com a Laura Pausini sem ser dublado. E eu só fui notar no segundo bloco. Aterrador. Eu nem mesmo quero aprender italiano. Eu odeio a Itália! Perdoa-me, avozinha, porque eu pequei. Mas o sobrenome ficou no caminho, e eu não quero nem passar perto de Roma. Veneza, talvez, mas só pra conferir se a cidade está mesmo afundando. Vai que um turista a mais por dia acelera o processo. O mundo, caros amigos, é cheio de mistérios...
Mas não é disso que eu quero falar. Eu quero falar de como é fácil deixar de escrever com dois esses, de como é impossível almoçar antes das duas horas ou jantar antes das dez. São oito, e eu nem fome tenho. Eu quero falar de como faz falta ter um amigo de verdade para tomar uma cerveja -- que eu não posso tomar por ordens médicas, ainda mais essa -- numa sexta à noite. Quero falar sobre família, coisa que a gente costuma dar por favas contadas (é a melhor tradução para "take it for granted" que eu conheço) quando não deveríamos.
Quero falar sobre o que é ter sonhos. Mas eu já não sei se estou com vontade de continuar.
Porque lá fora ainda está um sol bonito depois de uma semana de chuva, daqui a pouco tenho que ir fazer o jantar, tenho uns 30 filmes no meu computador pra assistir e, se eu ficar filosofando, não me sobra tempo pra nada disso. Mas eu queria fazer uma pergunta: o que é que vocês estão fazendo com o seu tempo? O meu eu sei que está sendo desperdiçado aqui e ali, mas eu tenho desculpas; melancolia, visto de estudante, falta de grana, essas coisas; e nem mesmo isso me exime da culpa de jogar minutos preciosos pelo ralo dos dias.
Explico. Uma coisa boa de ser fotógrafo é o tipo de gente que se conhece. Esses tempos eu conheci um rapaz cameronês que ficou encantado de saber que no Brasil se conhece Roger Millard. Ele entrou na Espanha como ilegal, e hoje trabalha na construção civil. Mas na verdade Paul Sagong é artesão, faz bonecas típicas africanas. Todos os dias quando chega em casa ele se mete no quarto para ficar pelo menos duas horas confeccionando os modelos que vai vender em feiras da Cruz Vermelha e outras do gênero.
Ele não tem computador, internet, fala com a família muito de vez em quando.
Isso parece livro de auto-ajuda, não? Do tipo: veja como as pessoas desfavorecidas podem ser felizes, seja feliz também jogando fora um pouco do seu dinheiro comprando o meu livro! Mas não, não é isso.
Só queria ter uma desculpa para falar de como é importante para mim ter um sonho, muitos, se possível, porque acredito que só assim é possível viver de uma maneira decente. Não ligo de ganhar dinheiro, já ganhei e acho até bem saudável não ter que se preocupar com as contas no fim (ou no começo) do mês. Mas se a vida se resume a isso, daí fica sem graça. Se você não quer desesperadamente alguma coisa (não um objeto, um objetivo), tudo se torna estúpido. Agora eu tenho que pedir perdão a Buda: desapego, my ass!
Bom, como sempre o que era para ser uma mensagem se tornou uma epístola. E eu me preocupei com o começo, o meio e o fim. O que demonstra que eu ainda estou longe de deixar de ser jornalista.
Fico por aqui. Espero que todos estejam bem e felizes. Protejam-se do frio. E pode deixar que eu não vou mandar ninguém usar filtro solar. Minha voz não chega perto da do Bial. :-)
Hasta luego!"
E é isso.
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:)