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Transatlântico

por nobody

Wednesday, 19.03.08

Todo va a estar bien

"Sei que tudo vai ficar bem
só não sei se vou ficar também..."

(Pato Fu com Andrea Echeverry; "Tudo vai ficar bem")


Essa entrou, já na primeira audição, no meu top ten de músicas para ouvir quando se está triste... para ficar mais triste. Está lá, ao lado de "Dowtown trains", do Tom Waits, "No surprises", do Radiohead e "Black", do Pearl Jam. E de "The way", do Fastball, de "Acrilic on canvas", do Legião Urbana (sim, eu fui adolescente nos anos 80, e daí?; pior quem gostava do Buongiovi) e de "O pastor", do Madredeus. Tem umas quantas mais, só que lista não vai interessar a ninguém, só a mim. Porque os motivos que as fazem tão especialmente tristes só fazem sentido na minha cabeça.

E é por aí que eu queria começar. Por que às vezes faz sentido estar triste mesmo que todo o mais diga em contrário?

Porque na verdade, esse é um post feliz. Motivos não me faltam: fui promovido, vou morar em Barcelona – na verdade, em Badalona, perto da praia, pelo menos em um primeiro momento – e de quebra passo a ser um residente de plenos direitos. Já posso começar a planejar minhas férias, o que significa que em breve estarei aí no Brasil, publiquei de novo no Globo no último domingo... Motivos não faltam. Então por que diabos nas últimas semanas eu sinto, tão freqüentemente, esse enjôo de quem vê o avião afundar no vazio em uma turbulência, como quem escuta a notícia de que morre um parente próximo?

Só pode ser pela mudança. Nem precisava minha terapeuta me dizer (oi, doutora Elaine, acho que quando chegar aí vou pedir umas consultas pra apertar os parafusos que foram soltando de lá p'ra cá) que tenho problemas com isso. Sou contra os câmbios. Quaisquer. Não queria sair do Rio e mesmo odiando Curitiba (sorry folks, é a mais pura verdade; adoro os amigos que fiz por lá, mas a cidade não me desce até hoje) demorei vinte anos pra ir embora. Quase todos meus relacionamentos acabaram quando a outra pessoa tomou a decisão que eu deveria ter tomado muito antes.

Só fui bom em dispensar trabalhos, o que não chega a ser motivo de orgulho.

Repito para mim mesmo: só pode ser por isso. Medo da mudança. Deixar Madrid, os amigos que fiz aqui, ter que aprender novos caminhos, que me acostumar a olhar para outro teto antes de dormir. Ser outra vez estrangeiro: Catalunya é outro país. Mesmo.

E estar só, irremediavelmente só. Isso assusta.

Ainda que já tenha gente ali me esperando. Os espanhóis dizem que os catalães são gente difícil, fechada, mas que quando você consegue um amigo, é para sempre. Se é realmente assim, tirei a sorte grande; já tenho três: uma me abriu a sua casa para quando eu chegar com mala e cuia, outro (meu chefe, um moleque de 26 anos) quer me ensinar a esquiar – alguém me vê em cima de uma prancha de snowboard? – e a última é uma companheira de master, mãe de uma menininha encantadora que ainda não fez seis meses, alguém cuja companhia me faz esquecer que estou tão longe de casa.

Vêem porque eu disse que este é um post feliz?

E podem entender também porque às vezes eu coloco os fones e fico ouvindo "Tudo vai ficar bem" até enjoar?

Seja como for, o que importa, agora, é que a partir do mês que vem eu vou poder oferecer alojamento em Barcelona. Me mudo em menos de duas semanas, com algumas caixas a mais na bagagem e a sensação de que estou começando minha vida outra vez. Exatamente como me sentia quando saí do Brasil. O que importa é que provei para mim mesmo – sim, porque cheguei a duvidar em alguns momentos – que acreditar é a coisa certa a se fazer. Acreditar e perseverar. "El que persevera, gana", me ensinou Jose Manuel Navia, um dos grandes com quem pude estar ano passado.

Vou continuar nessa rota que tracei um ano e meio atrás. Não sei dizer se é definitiva, se isso significa que vou estar aqui para sempre ou se depois de algum tempo vou me cansar como me cansei de tantas coisas antes. Não sei, e não faço questão de saber. Eu estava certo quando decidi vir, mas poderia ter me equivocado com gosto, e na verdade a única coisa que me interessa é que eu tentei e continuei tentando. E se tem alguma coisa que eu gostaria de deixar aqui, pra vocês, é isso: continuem tentando. Nada de murros em ponta de faca, por favor. Sou contra. Mas insistir quando parece que não dá mais pode terminar com um gosto bom na boca.

Estou esperando visitas.

P.S. A foto vai com título e legenda:

Soneto 11

"Amor é fogo que arde sem se ver;
É ferida que dói e não se sente;
É um contentamento descontente
É dor que desatina sem doer"

Luís de Camões


enviado por Marquexxx às 06:47 | 3 comentários

Sunday, 03.02.08

Lo que quedará

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Como el alba destroza el sueño, el nuevo día nos recuerda quien somos y todo lo que no podemos hacer. Despertar supone un dolor, el que sufrimos al nacer, la pérdida de la seguridad que sólo nos da la oscuridad – da igual que la del vientre o de la habitación. Despertar es perder una vez más la lucha contra la corriente que nos llevará. Es ver entrar pela ventana lo desconocido.

Despierta, niña, no te queda otra opción. Despierta y olvídate de lo bueno que fue soñar con nuestros brazos y piernas reflejados en un espejo partido – signo, quizás, de lo divididos que somos –, deje para tras el poco que tuviste de un hombre que un día fui yo. Despierta para volver a un mundo en el que has vivido hasta ahora sin darte cuenta de que era el tuyo: son otras las sábanas en que te acostarás, otra la piel que tocarás, otros los ojos que te mirarán sin la tristeza de los míos pero tampoco sin la misma ternura; tal vez otra la felicidad en escuchar una voz, una canción, el respirar que avisa de la llegada del sueño.

Te quedarán unas cuantas imágenes impresas en tu memoria, aunque lo pruebe la experiencia que poco a poco los recuerdos también son débiles para resistir a cada nuevo día. A lo mejor te quede por más tiempo un sabor agridulce en la boca y, quizás para toda la vida, te acompañe un olor suave que por fin perderá el sentido y no te hará daño.

Me quedarán las palabras. Ojos que me miraban desde un espejo partido. Burbujas. Mi nombre sonando en la oscuridad. Y la sensación de que he soñado sólo para entregar el sueño al alba que llega para todo destrozar.
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enviado por Marquexxx às 15:02 | comente

Saturday, 26.01.08

Tomo 8, Capítulo 1, Versículo 25

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Olá, senhoras e senhores!

Para variar, sumi de novo. O Natal já passou faz tempo, o Ano Novo também, recebi um monte de respostas dos meus "e-votos de felicidades" e nem sequer me dignei a responder de volta (coisa que eu sempre faço até o outro lado cansar) por absoluta falta de... sei lá do quê, mas não foi de tempo. Sorry, folks. Mas também não foi sem motivo; casa, trabalho, uma viagem às origens... tudo colaborou para andar longe daqui.

Começando pelo começo: as origens. Fui a Portugal e, lugares comuns à parte, me sinto mais brasileiro. Andar por Lisboa é como andar pelo Rio. Uns vinte anos atrás, claro, quando ainda se podia caminhar pelo centro da cidade sem medo. E acreditem, houve um tempo assim. Cresci jogando futebol na rua (é, eu também joguei futebol, fui um bom goleiro) com apenas um pé de kichute vestido de cada vez para economizar a sola, comendo manga, coco e goiaba do pé, indo catar girinos nos terrenos baldios do bairro. Quando as pessoas ainda colocavam suas cadeiras na calçada no fim das tardes de verão para aproveitar a fresca.

Isso não é saudosismo, isso é Portugal. Caldo verde de entrada, sardinha com batatas, vinho honesto a um euro. Pastéis de nata. Não chamem de pastéis de belém fora de Belém, que eles se ofendem. Gente caminhando tranqüila, muitos turistas, pouco alarde, por incrível que isso possa parecer, mesmo no Bairro Alto, onde há mais bares por metro de calçada propriamente calçada. Um cheiro que não se sabe se é de rio ou de mar. Como se a baía de Guanabara fosse limpa. Sei que são imagens muito subjetivas, mas em alguns de vocês isso talvez provoque uma sensação parecida à que eu experimentei.

Foi bacana, na falta de uma palavra mais apropriada. Se bem que dizer isso também respeita o espírito carioca que se assoma desde o começo. Bem bacana.

O que mais? Bom, nas últimas semanas creio ter aberto mais alguns caminhos por aqui – ainda que eu não faça idéia nenhuma de para onde eles vão me levar. Seja como for, estou feliz. Não que tenham sido dias livres de percalços (adoro essa palavra) e que eu esteja livre de dúvidas com relação à minha decisão de ficar. E lá se vão quase cinco meses desde que não saí de casa para ir a Barajas no dia em que havia um lugar reservado – e pago – para mim em um avião da TAP. Não me arrependi até agora, acho que não corro risco de que isso aconteça a curto prazo.

A novidade é que fui escolhido para publicar em uma revista daqui como um dos "novos talentos" da fotografia local. O único documentalista em meio a um monte de artistas, que no fim das contas são os que vendem alguma coisa, já que na Europa a fotografia invadiu museus e galerias com uma fome acumulada de mais de 100 anos. E não falo de pesos pesados, clássicos, mas sim de gente nova. Conheço uns quantos que estão expondo, vendendo quadros e, se ainda não vivem disso, já começam a ver a cor do dinheiro graças ao seu trabalho. Não é a minha, lo siento, por isso continuo com minhas reportagens.

E olha que as fotos escolhidas foram de uma série antiga, que eu não estou levando pra frente por falta de tempo. São imagens de cenas de metrôs das cidades do mundo que eu já visitei. Não são muitas, mas já é o suficiente para poder fazer uma seleção interessante. E aí estão elas, bem impressas em papel couché. Chega a ser difícil descrever a sensação de abrir a revista e vê-las ali. Tanto que das primeiras vezes nem notei que tinha uma a mais, bem no começo da publicação... Se ter um filho é assim, volto a querer quatro, como antes!

Já é hora. Como diria o professor Astromar, "faz-se tarde".

Pros mano, pou, pras mina, pá.

Suerte en la vida. O resto a gente dá um jeito.
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Montreal, março de 2006.
enviado por Marquexxx às 14:56 | 3 comentários

Thursday, 01.11.07

¿Cuánto cuesta morir?

enviado por Marquexxx às 21:02 | 1 comentário

Friday, 24.08.07

Pasajero

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Hoy desperté con un ruido. Lo que no es raro, una vez que vivo en frente a un taller de coches. Pero es domingo. El ruido sigue, como un ronquido fuerte, bajo pero constante. Cuando logro abrir los ojos, veo que la habitación tiembla. Por un segundo, a lo mejor dos, diez, quizás, pienso que todavía sueño: soñaba barcos en el puerto después de un huracán, una ciudad vacía y unos pocos amigos que resistían en irse de allí.

Pero no. La habitación tiembla de verdad. Las lámparas se mueven, la cama ya no está en su sitio, el ronquido crece. No es un sueño. Luego, todo cesa. Queda sólo el silencio de los domingos. Levanto, voy a la ventana. No hay nadie en la calle, nada en los edificios. Vuelvo a cama, pero no puedo dormir. Es que nunca había sentido el despertar de la tierra, siento que esto me recuerda que soy solamente pasajero, no capitán.

Salgo, compro el diario, tomo una taza de café. La vida sigue sin apenas interrupciones. Intento buscar las palabras para definir lo que para mí es una experiencia vital, pero no logro ir más allá de la descripción pura y dura de los hechos. Lo dejo. ¿La herencia de los años como observador me impiden de participar? Como si hubiera límites a los que no puedo tocar no porque son inaccesibles, pero porque mis brazos no despliegan de su sitio y siguen apuntando hacia abajo; las manos flojas. Otro día, tal vez.

El temblor, sin embargo, sigue dentro de mí.

P.S. Escrevi esse post no dia do terremoto, já faz quase um mês. Mas ainda não tinha me convencido de que deveria postar. Enfim, aqui está.
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enviado por Marquexxx às 12:18 | 1 comentário

Friday, 27.07.07

Molequinho

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Comprei um caderninho desses que aqui vendem em qualquer papelaria, com capa preta, folhas sem pauta e um elástico para impedir que, dentro da mochila, tudo acabe parecendo papel de presente depois de se ter aberto o presente. Muito útil também para segurar o que por acaso for colocado ali dentro, até porque ele vem com uma pastinha na contra-capa justamente para incentivar o usuário. A colocar coisas dentro.

E até que o danado é útil: no final de semana passado saí de casa com ele — ainda ter nada escrito — e, dentro, quatro passagens de ônibus, mapas do metrô e dos ferrocarriles e uma folha impressa do via Michelin com o caminho para chegar na casa onde ia ficar hospedado. Já ia esquecendo. Estava indo para Barcelona. Imaginei que, no caminho, ia me ocorrer alguma coisa para inaugurar o caderninho. O tal do Moleskine. Que, dizem, era usado pelo Hemingway.

Mas não me ocorreu nada. Da viagem, o balanço foram duzentas fotos e bolhas nos dois pés. Que na segunda descobri que se chamam "ampollas".

Seja como for, fui jogando para dentro do "molequinho" (sou carioca, a comparação é inevitável) tudo o que eu recolhia pelas ruas da cidade. Sim, sou daqueles que recolhe as coisas que distribuem os equivalentes locais da Igreja Universal, os pontos de informação turística, as propagandas de restaurantes onde eu nunca vou entrar porque eu sei que são para turista, os anúncios de búzios africanos, tudo. E depois guardo em uma caixa ou uma pasta esperando o dia em que vou abrir e relembrar coisas dessa e de outras viagens.

E daí? Turista japonês só sabe por onde passou depois que vê os vídeos em casa.

Seja como for, de novo, só fui inaugurar o caderninho de volta aqui em Madrid. Não por falta do que escrever. Mas admito que ultimamente eu ando com dificuldade de verbalizar qualquer coisa. Como se ao dar nome aos bois eu pudesse acordar algum. Prefiro manter os bichos dormindo. Tadinhos, vão virar hamburguer, mesmo. Enfim, faz tempo que eu evito até pensar. O que não é difícil, a Paris Hilton faz isso desde que nasceu.

Só que aconteceu uma coisa estranha. Depois das primeiras duas páginas, que saíram a muito custo, foi difícil foi parar de escrever. Não vou entrar em detalhes porque é a parte do meu cérebro que funciona em espanhol, mas ela está a todo vapor. Que ninguém se engane, não está nascendo um romance ou a vida como ela é, mas acho que finalmente eu achei um substituto à altura para a terapia. E olha que eu nem tinha notado que fazia falta.

Well, that's all folks. Até mais.

P.S. O verão é senegalês, e as Havaianas continuam sendo uma febre. Um par desses chinelos de fazer faxina em casa chega a custar mais de 20 €. Resultado: a criatividade empresarial já oferece uma alternativa para os bolsos menos privilegiados.
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enviado por Marquexxx às 00:58 | 4 comentários

Sunday, 03.06.07

O que os guias não contam

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Sábado, duas da manhã. Lavapiés. Quem já leu alguma coisa, qualquer coisa, sobre Madriz, certamente terá ouvido esse nome. É o bairro multicultural da cidade. Onde se instalaram os recém-chegados nas últimas marés de imigração -- que ainda estão longe de acabar. Estão ali os marroquinos dos 80, os asiáticos dos 90 e os subsaharianos que vieram daí em diante. Latino-americanos, não, porque colombianos, bolivianos e peruanos preferem outras regiões. E argentinos... bom, os argentinos acham que são espanhóis.

São duas da manhã porque eu saí de casa às nove para ir a uma abertura de exposição, acabei sendo levado para outra, mais longe, no Matadero de Legazpi, de lá para um bar em frente e dali, para uma danceteria-bar de copas-casa de shows no acima referido bairro. Depois de uma cerveja (lembrem, eu não posso por ordens médicas, mas é sexta-feira à noite, pelamordedeus!) e algumas tentativas de passos de dança junto com os amiguillos do curso, desisti e decidi ir pra casa.

Tinha uma boa desculpa, uma sessão de fotos nas "afueras" de Madriz às dez da manhã. Mas acho que não era por isso.

Às duas em ponto, estou sentando no balcão de um Dönner Kebab na calle del Amparo comendo um falafel completo. Adoro falafel, não sei se pelo bolinho em si ou pelo molho. Enfim. Nos últimos dez minutos eu havia tentado em vão decifrar se o cozinheiro era indiano ou paquistanês, mas desistido porque em tudo, aos meus olhos, eles são idênticos. Sei que isso pode soar a ofensa, mas é assim. Até a tevê a cabo costuma ser a mesma. Clips de música pop asiática que em tudo lembra a norte-americana, descontando as peles morenas e o jeito de mover os braços nas coreografias, que de resto poderiam ter saído de um vídeo da Beyoncé ou da Aguillera.

Nesse momento, me dou conta de que estou fazendo exatamente aquilo que desejava — mais que isso, ansiava — fazer há exatamente um ano. Estar fora do Brasil (mais que isso, fora de Curitiba) vivendo uma experiência que havia sido meu Eldorado desde a adolescência. Algo como uma gestalt gastronômico-cultural: de repente, tudo o que eu via na minha frente soava a algo que eu já tinha imaginado, sonhado, planejado. O fato de ter vivido isso em Lavapiés é emblemático, porque é o lugar em que todos os guias te dizem para ir se você deseja uma experiência assim em Madriz.

É embriagante. A sensação de liberdade, de estar, repentina e absolutamente, completo. Não te falta nada, da cabeça aos pés. Você está ali, você está vivendo aquilo. é uma noite agradável, vinte graus celsius acima do que faz na terra de onde você veio. É perfeito.

O que os guias não contam, porém, é o que você sente depois. Imagino que isso deve ser único para cada um, se é que todo mundo chega a esse ponto. Para mim, foi algo como uma emotional hangover gigante. É impossível não fazer a pergunta clássica: "Ok, era isso o que você queria, e agora?"

Então? E agora?

Não tenho reposta. Quero estar aqui, como queria antes, porque sinto que onde estava não era capaz de me libertar das sutis tramas que a vida costuma te oferecer como caminho para a felicidade ou a perdição. Nunca quis estar em Curitiba, desde o começo, e ainda assim fiquei 20 anos na cidade. Cheguei com a família, logo havia a faculdade, a outra faculdade, depois o trabalho, o casamento, os amigos, a banda... Nenhuma obrigação, essa é a cruel lógica da vida. Fiquei porque quis, porque achei que ficar era o certo em cada momento. Mas nunca deixei de querer ir embora. Parece ingratidão, mas não é. Nada contra, folks, eu só não gosto. Ponto.

Aqui, estou começando projetos, estou sendo obrigado a enfrentar tudo e a mim mesmo sem ajuda de ninguém. Ok, tenho minha garota, mas isso é outra história. Aqui, não dá mais para olhar no espelho e dizer "daqui a pouco, espera só uns dias a mais, um ano, dez, talvez". Não. É agora; nunca, como antes, vivi o momento presente como hoje. Nunca me senti tão vivo. Nem tão ameaçado. Por isso estou aqui à uma da tarde de um domingo, porque preciso mastigar muito bem esses sentimentos e digeri-los perfeitamente. Como o falafel.

Hasta luego.

"Neste mundo só há duas tragédias. Uma é não ter o que se deseja, a outra é consegui-lo. Esta última é a pior, é a verdadeira tragédia."
Oscar Wilde

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enviado por Marquexxx às 07:24 | 5 comentários

Friday, 01.06.07

Buenos días

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Finalmente estou aqui. Depois de levar uma bronca do Zero, que gentilmente me convidou para entrar no tipos, estou reciclando um e-mail escrito essa semana, que mandei para os amigos depois de ter ficado muito tempo sem dar notícias. Para quem não me conhece, sou jornalista, nascido e criado no Rio e, depois vinte anos de exílio em Curitiba, vivendo hoje em Madriz para um master em fotografia. Não tenho vontade de voltar, mas isso é outra estória. Pretendo ser assíduo a partir de agora, porque coisas para contar é que não me faltam. Espero que gostem.

"Bom, em primeiro lugar, eu sei que faz tempo. Muito tempo. Para quem não me encontra no msn, meses. Mas a vida é assim. A gente fica tão ocupado com outras coisas que esquece que ela passa. E passa rápido. Muito rápido. Eu não consigo nem lembrar quando foi que eu parei de prestar atenção para entender o que se falava na tevê. De repente, sem que eu tenha me dado conta, eu entendia. Tudo bem, eu continuo tendo que fazer leitura labial para compreender um amigo que é de Las Palmas, mas isso é outra história.

Pior ainda, acreditem, foi descobrir que eu estava assistindo a uma entrevista do Zucchero com a Laura Pausini sem ser dublado. E eu só fui notar no segundo bloco. Aterrador. Eu nem mesmo quero aprender italiano. Eu odeio a Itália! Perdoa-me, avozinha, porque eu pequei. Mas o sobrenome ficou no caminho, e eu não quero nem passar perto de Roma. Veneza, talvez, mas só pra conferir se a cidade está mesmo afundando. Vai que um turista a mais por dia acelera o processo. O mundo, caros amigos, é cheio de mistérios...

Mas não é disso que eu quero falar. Eu quero falar de como é fácil deixar de escrever com dois esses, de como é impossível almoçar antes das duas horas ou jantar antes das dez. São oito, e eu nem fome tenho. Eu quero falar de como faz falta ter um amigo de verdade para tomar uma cerveja -- que eu não posso tomar por ordens médicas, ainda mais essa -- numa sexta à noite. Quero falar sobre família, coisa que a gente costuma dar por favas contadas (é a melhor tradução para "take it for granted" que eu conheço) quando não deveríamos.

Quero falar sobre o que é ter sonhos. Mas eu já não sei se estou com vontade de continuar.

Porque lá fora ainda está um sol bonito depois de uma semana de chuva, daqui a pouco tenho que ir fazer o jantar, tenho uns 30 filmes no meu computador pra assistir e, se eu ficar filosofando, não me sobra tempo pra nada disso. Mas eu queria fazer uma pergunta: o que é que vocês estão fazendo com o seu tempo? O meu eu sei que está sendo desperdiçado aqui e ali, mas eu tenho desculpas; melancolia, visto de estudante, falta de grana, essas coisas; e nem mesmo isso me exime da culpa de jogar minutos preciosos pelo ralo dos dias.

Explico. Uma coisa boa de ser fotógrafo é o tipo de gente que se conhece. Esses tempos eu conheci um rapaz cameronês que ficou encantado de saber que no Brasil se conhece Roger Millard. Ele entrou na Espanha como ilegal, e hoje trabalha na construção civil. Mas na verdade Paul Sagong é artesão, faz bonecas típicas africanas. Todos os dias quando chega em casa ele se mete no quarto para ficar pelo menos duas horas confeccionando os modelos que vai vender em feiras da Cruz Vermelha e outras do gênero.

Ele não tem computador, internet, fala com a família muito de vez em quando.

Isso parece livro de auto-ajuda, não? Do tipo: veja como as pessoas desfavorecidas podem ser felizes, seja feliz também jogando fora um pouco do seu dinheiro comprando o meu livro! Mas não, não é isso.

Só queria ter uma desculpa para falar de como é importante para mim ter um sonho, muitos, se possível, porque acredito que só assim é possível viver de uma maneira decente. Não ligo de ganhar dinheiro, já ganhei e acho até bem saudável não ter que se preocupar com as contas no fim (ou no começo) do mês. Mas se a vida se resume a isso, daí fica sem graça. Se você não quer desesperadamente alguma coisa (não um objeto, um objetivo), tudo se torna estúpido. Agora eu tenho que pedir perdão a Buda: desapego, my ass!

Bom, como sempre o que era para ser uma mensagem se tornou uma epístola. E eu me preocupei com o começo, o meio e o fim. O que demonstra que eu ainda estou longe de deixar de ser jornalista.

Fico por aqui. Espero que todos estejam bem e felizes. Protejam-se do frio. E pode deixar que eu não vou mandar ninguém usar filtro solar. Minha voz não chega perto da do Bial. :-)

Hasta luego!"

E é isso.
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enviado por Marquexxx às 07:26 | 7 comentários